
João da Cruz (1942 – 2023)
João da Cruz foi um lavrador, místico e escritor
bissexto, cuja obra permaneceu oculta sob o silêncio do roçado por mais de seis
décadas. Nascido sob o sol forte de Cajazeiras, Paraíba, em 14 de maio
de 1942, era filho de Francisco da Cruz e Maria das Dores da Cruz. Cresceu em
uma família numerosa, ao lado dos irmãos Severino, Antônia e José da Cruz, onde
o trabalho braçal e a fé eram as únicas heranças garantidas.
A Vida no Cabo da Enxada
Diferente de muitos de sua
geração, João conseguiu concluir o antigo 2º Grau (atual Ensino Médio),
estudando à luz de candeeiros após as jornadas no campo. No entanto, sua
verdadeira escola foi a terra. Desse modo, o falecido escritor viveu da roça,
cultivando o milho, o feijão e a macaxeira, entendendo o tempo das chuvas e o
temperamento do solo como poucos.
Porém, sua simplicidade era sua
maior marca; um homem de poucas palavras, mas de olhos atentos, que trazia nas
mãos as calosidades do trabalho e, no bolso da camisa de riscado, sempre um
toco de lápis e papéis dobrados.
Em vista disso, a
espiritualidade de João da Cruz era uma trama complexa de devoção e
ancestralidade. Na comunidade, era figura central e respeitada: Católico
fervoroso: não perdia uma missa de domingo e era devoto fervoroso de Padre
Cícero; Rezador de Ofício: conhecido por “fechar o corpo” de crianças e
benzer o gado doente com ramos de arruda e orações seculares. Além disso, também
mestre juremeiro: no silêncio da mata, João mantinha viva a tradição da Jurema
Sagrada, conectando-se com os encantados e as raízes indígenas e africanas
que compõem o solo espiritual paraibano.
Posteriormente, João da Cruz
faleceu em paz no Distrito do Timbó, em Jacaraú (PB), lugar que escolheu
para viver seus últimos anos. Foi somente após o seu sepultamento que seus
familiares encontraram, guardados em uma antiga arca de madeira, dezenas de
cadernos e folhas soltas.
Seus escritos revelaram um autor
com forte inclinação ao mundo sagrado, sombrio, culminando na sua grande
obra: “O Auto das Rezadeiras”, que descrevia com precisão cirúrgica a
crueza da trajetória de vida de rezadeiras no brejo paraibano, o misticismo das
matas e a psicologia rezadeiras brejeiras.

Nesta obra magnífica, João da Cruz inaugura o primeiro romance brasileiro e nordestino, dedicado a narrar a história de mulheres rezadeiras na região brejo do estado da Paraíba. O romance, de gênero híbrido, traz o realismo mágico, o auto e o gótico como estéticas que se fundem para traçar o sombrio enredo de mulheres, especialmente de três delas: dona Josefa, Penha e Ana, representando três geraç
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