
Era uma vez um escritor que não sabia escrever sobre si mesmo.
Escrevia histórias, imaginava mundos, viajava sonhos, mas sobrava uma dúvida:
Qual a pergunta que ele fazia em todos os seus livros?
Descobri que responder essa pergunta era, na verdade, começar a contar a minha própria história.
Afinal, um livro é muito mais que uma história. Uma história é uma oportunidade de descobrir o pulsar de um coração no pingar de uma torneira e entender o quanto é capaz de se permitir mudar depois de escrever, de ler e, principalmente, de escutar aquele mundo feito de palavras, sentindo o que ele está contando.
Mais do que um escritor, sou um observador atento e interessado nas histórias que vivem à minha volta. Naquelas que são contadas em palavras e imagens, e também naquelas que permanecem nos silêncios, nos pequenos gestos, nas emoções mínimas — como uma lâmpada que parece sorrir quando pisca — e que se transformam nas memórias que carregamos sem perceber.
No entanto, minha escrita não nasce da curiosidade.
Ela surge da busca por aquilo que permanece em mim quando me esqueço. Daquilo que o tempo transforma nas diferentes versões de mim mesmo que continuam vivendo em algum lugar da memória e, às vezes, vêm me visitar…
Como uma brisa.
Passei diversas vezes na mesma estrada, mas como aquele rio, ela nunca era a mesma. A cada passo, pessoas de diferentes origens, histórias e percepções encantaram meu olhar.
É desse encantamento entre observação, memória e sentimento que dou vida a romances que exploram a beleza escondida nos momentos mais simples, criando espaços de encontro onde cada leitor pode reconhecer suas próprias lembranças, sentimentos e perguntas.
Lugares, objetos e lembranças deixam de ser apenas coisas, e passam a nos tornar verdadeiros, visíveis — e talvez ajudem a acordar aquela parte de nós mesmos que anda dormindo.
É para esses espaços — onde guardamos aquilo que permanece — que lhe convido a caminhar comigo, a percorrer buscas por pertencimento, memória e afeto, para quem sabe, nas sombras de uma árvore em alguma curva da estrada, encontrar respostas para a necessidade profundamente humana de ser visto e acolhido.
Porque algumas histórias são lidas.
Outras não terminam quando a última página é fechada. Elas continuam vivendo na pergunta que despertam:
O que continua vivendo em nós depois que tudo muda?

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