
Não sei exatamente quando comecei a ser escritor.
É curioso dizer isso, porque sei quando comecei a escrever.
Eu tinha sete anos.
Mas talvez escrever e ser escritor sejam coisas diferentes.
Aos sete, eu apenas inventava histórias. Não sabia o que era literatura, não conhecia as palavras que hoje uso para explicar aquilo que faço e tampouco imaginava que uma brincadeira de criança pudesse me acompanhar por tantos anos. Eu apenas escrevia porque havia histórias demais dentro de mim e, de algum modo, precisava colocá-las para fora.
E foi assim que tudo começou.
Se eu tivesse de encontrar, entre os povos de Eldra’Naes, alguma criatura que se parecesse comigo naquela época, talvez eu escolhesse os Filhos do Chão.
Não porque fossem os maiores, os mais sábios ou aqueles destinados aos grandes feitos. Muito pelo contrário. Os Filhos do Chão pertencem às pequenas coisas. Conhecem o valor de uma casa, de uma mesa, de uma lembrança guardada, de uma tarde comum. Não precisam conquistar montanhas para compreender que existe beleza no lugar onde seus pés repousam.
Eu era assim.
Ainda sou, em muitos sentidos.
Enquanto crescia, Eldra’Naes crescia comigo.
Durante algum tempo, era apenas um nome, algumas personagens e ideias que provavelmente nem faziam sentido fora da minha cabeça. Depois vieram os reinos, os povos, as antigas histórias, as guerras, os laços de sangue, os amores, as perdas e as perguntas que, com o passar dos anos, começaram a se tornar mais importantes do que as próprias respostas.
Eu não planejei construir um universo.
Ele simplesmente foi acontecendo.
Uma história puxava outra. Um personagem exigia um passado. Um lugar precisava de um povo. Um povo precisava de uma memória. E, quando percebi, aquilo que havia começado como imaginação infantil já possuía uma história própria.
Eldra’Naes tinha se tornado grande demais para caber apenas na infância de quem a criou.
Foi então que compreendi uma coisa que talvez seja uma das maiores contradições de ser escritor: chega um momento em que você percebe que não é mais somente aquele que inventa. Você também precisa escutar.
Há personagens que tomam caminhos que eu não esperava.
Há acontecimentos que surgem porque precisam acontecer.
Há sentimentos que aparecem nas páginas antes mesmo de eu compreender por que os escrevi.
Talvez seja essa a parte mais estranha de criar um mundo.
Você começa acreditando que está dando vida a alguma coisa, até perceber que essa coisa também começou a dar forma à sua própria vida.
Eldra’Naes me acompanhou enquanto eu crescia.
Algumas partes dela pertencem ao menino que fui. Outras pertencem ao homem que estou me tornando. Há coisas que escrevi há muitos anos e que hoje compreendo de maneira diferente. Há personagens que nasceram de sentimentos que eu sequer sabia nomear. Há histórias que mudaram porque eu também mudei.
Por isso, quando olho para Crônicas de Eldra’Naes, não vejo apenas livros.
Vejo anos.
Vejo versões de mim mesmo.
Vejo perguntas que fiz quando era criança e que ainda não terminaram de ser respondidas.
Black Novel, Entre as Chagas e Herdeiros da Aurora Silenciosa são partes dessa caminhada. Não foram escritos por uma única versão de mim, porque eu também não fui uma única pessoa durante todos esses anos.
O autor que escreveu as primeiras linhas não é o mesmo que escreve hoje.
Mas os dois ainda se reconhecem.
E talvez seja justamente isso que mais importa.
Sempre gostei da ideia de que grandes jornadas não começam necessariamente com grandes heróis. Às vezes começam com alguém que estava em casa e que, por alguma razão, resolveu olhar além da própria porta.
Talvez eu tenha sido assim.
Não nasci com a pretensão de construir uma mitologia.
Eu apenas tinha uma imaginação que nunca aprendeu muito bem a ficar quieta.
E talvez por isso eu me veja um pouco nos Filhos do Chão, mas também reconheça em mim algo dos Altivos: essa necessidade quase incômoda de olhar para além do horizonte e perguntar o que existe depois dele.
Dos Dríades, talvez tenha aprendido a paciência das coisas que precisam crescer.
Dos Faunos, a inquietação.
Dos Centauros, a necessidade de seguir adiante mesmo quando o caminho se torna difícil.
Dos Thalassae, talvez a lembrança de que nem tudo aquilo que é profundo pode ser visto da superfície.
E dos homens de Eldra’Naes, aquilo que provavelmente mais me interessa em todos eles: a capacidade de errar, amar, perder, mudar e continuar.
Nunca quis criar personagens perfeitos.
Talvez porque nunca tenha acreditado muito em pessoas perfeitas.
Prefiro aqueles que carregam alguma contradição consigo. O herói que possui medo. O homem que ama, mas não sabe demonstrar. Aquele que erra e precisa conviver com aquilo que fez. Aquele que parece forte e, ainda assim, possui lugares dentro de si que permanecem frágeis.
É por isso que, para mim, Eldra’Naes nunca foi apenas fantasia.
A fantasia é o seu rosto.
Mas aquilo que existe por baixo dela é humano.
Talvez essa seja também a razão pela qual nunca consegui separar completamente minha escrita daquilo que sou.
Escrever sempre foi uma maneira de compreender coisas que, fora das páginas, eu não sabia explicar.
Algumas dores se tornaram personagens.
Algumas esperanças ganharam nomes.
Algumas lembranças encontraram lugares onde pudessem permanecer.
E algumas perguntas que eu não conseguia responder simplesmente continuaram existindo dentro das histórias.
Ao mesmo tempo, minha relação com a ciência me ensinou uma outra forma de olhar para o mundo.
A paleontologia me fez perceber que a realidade pode ser tão extraordinária quanto qualquer fantasia. Antes dos reinos, antes das línguas, antes dos homens contarem histórias sobre dragões e criaturas antigas, a própria Terra já havia produzido seres que parecem saídos de uma lenda.
Talvez por isso eu nunca tenha enxergado ciência e fantasia como inimigas.
Uma me ensina a perguntar o que existiu.
A outra me permite perguntar o que poderia existir.
E entre essas duas perguntas encontrei boa parte de quem sou.
Hoje, tantos anos depois daquele menino de sete anos, continuo escrevendo.
Não porque tenha conseguido terminar a história que comecei naquela época.
Mas porque ainda não consegui deixá-la para trás.
E, sinceramente, não sei se algum dia conseguirei.
Talvez nem queira.
Há algo de profundamente bonito em carregar consigo uma parte da criança que fomos. Não a ingenuidade, nem a falta de entendimento sobre o mundo, mas aquela capacidade de olhar para uma folha vazia e não enxergar um vazio.
Enxergar possibilidade.
Foi isso que aquele menino me ensinou.
E é por ele que continuo.
Se um dia me perguntarem quem é M.H.B. Ferreira, talvez eu não saiba responder com as palavras mais adequadas.
Sou escritor, sim.
Sou pesquisador, divulgador científico e autor de um universo que começou a nascer quando eu ainda era criança.
Mas, antes de qualquer título, talvez eu seja simplesmente aquele menino que nunca deixou de olhar para o horizonte.
Aquele que veio do Chão, mas que sempre quis saber o que havia além das montanhas.
Aquele que começou com algumas páginas e acabou encontrando reinos inteiros.
Aquele que passou mais de uma década caminhando ao lado de Eldra’Naes.
E talvez essa seja a melhor maneira que encontrei para contar minha própria história:
Eu não criei Eldra’Naes sozinho.
Eu cresci com ela.
E, de alguma maneira que ainda não sei explicar completamente, enquanto eu crescia, ela também crescia comigo.
Talvez seja esse o verdadeiro ofício de um escritor.
Não inventar mundos para fugir daquele em que vive.
Mas construir mundos para conseguir voltar ao seu próprio mundo enxergando-o um pouco melhor.
E é por isso que continuo escrevendo.
.
Porque ainda existem histórias que não contei.

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